"O sistema literário brasileiro está doente", afirma jurado "C" do Jabuti

Postado em 3 de dezembro de 2012 por Cooperativa Cultural Brasileira

Conforme a Folha adiantou, Gurgel é o jurado "C", aquele que atribuiu notas muito baixas a favoritos da categoria Romance da 54ª edição do Prêmio Jabuti, garantindo que seus livros preferidos fossem alçados aos primeiros lugares.


Até que pudesse se pronunciar --o regulamento não permitia que se manifestasse antes da revelação oficial do júri, --Gurgel foi atacado na internet durante semanas a fio-- até de "jurado Carminha", a vilã da novela "Avenida Brasil", ele foi chamado.

A legitimidade do voto, no entanto, foi garantida pela Câmara Brasileira do Livro, que patrocina o prêmio --o que não a impediu de chamá-lo para dar esclarecimentos sobre seus votos, o que não havia acontecido nas três edições anteriores do Jabuti, nas quais foi jurado na mesma categoria.

Victor Moriyama/Folhapress
"O sistema literário brasileiro está doente", afirma Rodrigo Gurgel, jurado "C" do Jabuti
"O sistema literário brasileiro está doente", afirma Rodrigo Gurgel, jurado "C" do Jabuti

Nesta entrevista, concedida num restaurante em São Paulo, na semana passada, ele explicou como viveu essas semanas de tensão após a abertura de seus votos no prêmio Jabuti.

Ele também falou do sistema literário brasileiro que além de "doente" está "dominado pelos departamentos de letras das universidades", e de sua formação.

Nesse aspecto, trata-se de uma trajetória nada incomum na era Lula: ex-militante do PT, pelo qual chegou a tentar uma cadeira na Câmara de Vereadores de Jundiaí (SP) -recebeu 700 dos 850, 900 necessários--, e ex-colaborador de publicações da CUT, Gurgel bandeou-se para o outro lado do espectro político. Hoje é engajado aluno do filósofo Olavo de Carvalho, conhecido por suas ideias conservadoras e pelo combate ao relativismo cultural.

"Não havia uma ética", diz ele sobre as primeiras "decepções" com a esquerda, no início do primeiro governo Lula. "O discurso era um. Mas a prática era a politica maquiavélica que é feita em qualquer partido."

No campo literário, Gurgel cultivou a fama de severo, com julgamentos implacáveis contra "estruturalistas", "desconstrucionistas" e outros advogados do experimentalismo.

Atualmente, desenvolve um projeto ambicioso: reler todo o cânon da literatura brasileira e submetê-lo a seu crivo em textos publicados no jornal "Rascunho". O primeiro fruto, o volume de ensaios "Muita Retórica, Pouca Literatura - de Alencar a Graça Aranha" (Vide Editorial), foi publicado em agosto.

Sobra para todo mundo, inclusive Machado de Assis. De Raul Pompeia, o importante autor de "O Ateneu", que vem sendo revalorizado pela crítica universitária, Gurgel diz: "Nós superestimamos, e eu superestimei durante muito tempo, o Raul Pompeia". Ele pretende chegar até Osman Lins (1924-78), célebre pelos experimentalismos de "Avalovara" (1973).

"Sempre tive uma dificuldade com os escritores nacionais", conta. "São muito retóricos, confundem literatura com eloquência, tem essa tendência a achar que a literatura não pode ser coloquial, tem que ter alguma artificialidade."

A crítica também não é poupada: segundo ele, "Se você não inovar em termos linguísticos, se você não tentar recriar o "Finnegan's Wake" [de James Joyce, marco da prosa experimental] o livro já não é bom" para os críticos brasileiros. O que fica são "exercícios narcisísticos".

Quando foi servido o vinho, Gurgel provou-o em clima de suspense, examinando cada nuance do buquê.
Apreensivos, garçom e repórter tiveram certeza de que, rigoroso que é, Gurgel ia mandar devolver a garrafa. Não foi o caso, e o crítico ergueu um brinde à literatura brasileira.

FOLHA - Ao perceber a mudança no regulamento, você se deu conta de que poderia decidir o resultado do Jabuti?

Rodrigo Gurgel - O meu voto não foi nem maquiavélico, nem visionário. O Jabuti é um prêmio feito em duas fases, em que você não tem contato com os outros jurados. Então a decisão é sua, individual.

Na primeira escolha, que é classificatória, você necessariamente tem que dar as notas. Então você dá as notas, mas não na perspectiva de fazer um ganhador. Você escolhe, num universo de mais de 150 romances, os dez romances que na sua opinião são os melhores. O que não significa que sejam genais, o suprassumo da literatura nacional. É a aquilo que você tem naquele momento.

Quando a gente vai pra segunda fase, o jurado recebe a lista dos romances que passaram para a segunda fase, não em ordem alfabética, mas por ordem de classificação, de na ordem das notas que os livros receberam.

Já é um ranking.

Já é um ranking. Quando eu abri o papel, a primeira coisa que me chamou a atenção [na lista de finalistas] foi o livro do Wilson Bueno ["Mano, a Noite Está Velha", ed. Planeta], que eu havia colocado em último lugar, apesar de ter dado uma nota de oito e pouco. Se um livro que você colocou em último lugar está em primeiro na lista, a primeira reação é dupla: você pensa em reler alguma coisa do livro, para ver se o julgamento continua de pé.


E, é claro, depois que chegou à conclusão que o seu julgamento continua o mesmo, você coloca ele de volta onde colocou na primeira lista. Só que aí você quer que outros livros sejam os primeiros. Aqueles que você considera melhores. Então você derruba a nota.

Por isso você atribuiu notas diferentes a Wilson Bueno?

É, e tem que ser assim. E o regulamento permitia essa possibilidade. Um jurado que não tem escolhas é um jurado que não tem critérios claros, não há necessidade de julgar.

Qual foi a segunda coisa que me chamou a atenção? Em segundo lugar, estava o livro da Ana Maria Machado, que é um livro que eu já tinha descartado desde a minha primeira lista. Então eu não tive dúvida. Esse livro eu nem precisei olhar de novo. Tive que colocar ele na posição de penúltimo lugar.

Para ranquear as suas preferências?

Claro. É evidente. Tinha livros que eu achava que eram melhores: foram os que coloquei nos quatro primeiros lugares. Foi a mesma coisa que eu fiz com o livro da Luciana Hidalgo, que eu tinha colocado na minha lista inicial em sétimo lugar.


Quando ela surgiu em quatro lugar na lista, não tive dúvida: passei ela pra baixo também. Quais são os quatro livros melhores, na minha opinião? São esses, que eu coloquei em primeiro lugar. Foi isso, nada mais, nada menos. Em nenhum momento imaginei que o peso da minha nota poderia significar a desclassificação definitiva de alguém. Eu não fiz essa conta. Eu pensei: vou privilegiar os livros de que gostei e dar uma nota baixa para os livros de que não gostei ou gostei menos.

E você achou adequada a mudança no regulamento deste ano, que permitiu notas de zero a dez, em vez de limitar a oito a dez, como antes?

Acho que o Jabuti está buscando soluções. Essa mudança das notas deveria ter sido pensada. Quem estabeleceu a nova regra não fez as contas. Não pensou: bom, quais são as situações que podem ocorrer? Ou então acreditou que todos os jurados votariam sem compromisso.

O que, aliás, é o que mais me chama a atenção nas críticas que recebi. E as mais violentas foram de escritores. Eu acho interessante. Em nenhum momento passa pela cabeça deles que eles poderiam ser um dos livros escolhidos por um jurado que luta pelos livros de que gosta. Um jurado que não teme se comprometer.

Que reações foram essas?

Foram coisas na internet, as pessoas julgando a minha atitude como se fosse irresponsável, impensada, desonesta, quando não é nada disso. Sou apenas um crítico que se compromete com as coisas, eu digo o que eu penso, não tenho medo de julgar e julgo. E se me pedem para julgar e me dão os critérios, eu uso os critérios.


O que pensou da atitude de do curador do prêmio, José Luiz Goldfarb, de logo no anúncio dos finalistas atribuir ao jurado C a responsabilidade pela situação?

As informações que tenho sobre ele, de amigos em comum, são todas ótimas. Eu não vi uma pessoa até hoje falar mal do Goldfarb. Acho que a atitude dele foi a de quem foi pego desprevenido. Ele não tinha feito as contas, não estudou os cenários possíveis. Não falou: se dois críticos derem dez e os outro crítico der zero, o que acontece com esse livro?

Quando ele viu o que aconteceu, ele simplesmente não estava preparado. E quando você não está preparado, é claro, prevalece a emoção.

Ele procurou você?

Nós conversamos por telefone, por solicitação de uma pessoa que é da comissão coordenadora. Essa pessoa começou a me cobrar posições, que eu justificasse a minha atitude. Eu disse: escuta...


Isso já tinha acontecido em edições anteriores?

Nunca me perguntaram nada, nunca tive contato com ninguém. Eu nunca tinha conversado com o Goldfarb. Eu disse então faz o seguinte: me dá o telefone do Goldfarb e eu ligo diretamente para ele.


E como foi?

Foi ótima, foi uma conversa no celular, e ele entendeu meu ponto de vista. Pelo menos foi a impressão que eu tive. Ele disse eu não concordo com a nota que você deu, não me lembro a expressão que ele usou, não sei se foi radical ou qualquer coisa assim, mas foi tudo dentro do regulamento e eu vou bancar, a CBL [Câmara Brasileira do Livro] vai bancar o seu voto. Nesse ponto eles foram extremamente éticos, muito corretos. Tivemos uma reunião, da qual o Goldfarb não participou, mas com os diretores.


Com os outros jurados também?

Não. Uma reunião comigo. Eu nem sei quem são os outros jurados, não faço ideia. Foram muito atenciosos e disseram: a única coisa que nós queremos dizer é que nós vamos prosseguir, o voto está dado, foi dentro das regras, você fique absolutamente tranquilo. Só não vamos defender em termos teóricos, em termos críticos, o seu voto.

Eu disse: mas isso é evidente, cabe a mim. Eu dei o voto e tenho uma justificativa para cada voto que eu dei. Reforçaram a questão de eu não me pronunciar até a entrega do prêmio [no último dia 28]... Eu disse: não tenham a menor dúvida, isso é inquestionável.

Por que houve tanta indignação com o resultado, especialmente em torno do livro da Ana Maria Machado?

Aí entram vários fatores. O primeiro fator é o ego do escritor. A primeira reação é essa que ela teve: "Ele votou contra o meu livro" [declaração da escritora em entrevista à Folha]. Ela não consegue imaginar que, na verdade, o procedimento foi outro. Eu votei a favor de outros livros, na minha opinião melhores que o dela.


Como relação especificamente a essa reação, não sei, talvez o fato de no momento em que abriram os votos da fase eliminatória, os últimos votos, me disseram que estava lá um jurado, e que ele reagiu muito mal. Fez um escândalo.

A abertura é pública, se eu quisesse, poderia estar lá. E também estava lá uma jornalista, se não me engano do jornal "O Globo", e aí a coisa estourou. Agora, por que ele teve essa relação, não posso... não sem nem quem é, nem por que ele teve essa reação.

Qual é o valor do Jabuti?

É o prêmio mais importante, de mais nome. E inclusive do ponto de vista da forma que se dá à votação, do meu ponto de vista é a forma correta, em relação ao fato de que os jurados ficam incógnitos. Não há possibilidade de você sofrer qualquer tipo de assédio, qualquer tipo de pressão, diferentemente de outros prêmios em que os jurados são anunciados, os nomes são públicos, os jurados se encontram, discutem. Eu, particularmente, não acredito nesse tipo de democracia. Não funciona.


O que o episódio revelou para você da cultura literária brasileira?

Os nossos escritores não estão acostumados a serem julgados. O nosso sistema literário está doente. Por quê? Quem aliás falou um pouco sobre isso há alguns meses foi a [editora e agente literária] Luciana Villas-Boas, numa entrevista: as editoras estão controladas pelos departamentos de letras das universidades. Então o que acontece? Hoje, a hegemonia dos departamentos de letras pertence a dois grupos: os estruturalistas e os desconstrucionistas.


Quem são os desconstrucionistas?

Eu vou chegar lá. Essas pessoas têm a hegemonia ideológica nos cadernos culturais, nas poucas publicações literárias que nós temos, nas editoras de livros. Quando eles escrevem uma crítica, as preocupações deles são, primeiro, a questão formal, linguística. Há um exagero de preocupação em relação a isso.


Se você não inovar em termos linguísticos, se você não tentar recriar o "Finnegan's Wake" [de James Joyce, marco da prosa experimental] o livro já não é bom, ou é um livro tímido, que revela insegurança. O que nós poderíamos chamar de narradores tradicionais já são repudiados por princípio. O mesmo acontece nas editoras. Esse é o pessoal mais considerado.

Em termos de crítica literária, a preocupação desses críticos, na verdade, não é primeiro com relação à forma: é exclusivamente com relação à forma. Porque eles partem do princípio de que a obra é autossuficiente. A obra não tem que dialogar com a realidade. A literatura não tem que dialogar com o mundo. Tem que dialogar com ela própria.

O que você vê muito hoje em dia em termos de crítica são exercícios narcisísticos. Hoje uma crítica como a do Álvaro Lins, dizendo que determinada peça do Nelson Rodrigues é um horror, não existe. Aí entram os desconstrucionistas. Para eles, o texto nunca pode expressar a verdade. Ora, se nunca podem expressar a verdade, o texto não é nada, é só um mero exercício.

O que é um contrassenso, porque se o texto é um vazio, um somatório de fórmulas que ficam falando sobre si mesmas e nada mais, o próprio texto que o desconstrucionista escreve não tem valor nenhum. Estamos no centro de um sistema que está viciado.

Mas de onde vem isso?

O [crítico literário] Antonio Candido fala que o nosso sistema literário, no início, era assim: as pessoas que produziam eram as pessoas que consumiam. Esse é o nosso grande problema, nós não temos leitores. O escritor escreve para agradar o crítico, pra agradar o professor de teoria literária e para agradar os seus amigos.


Então ele precisa ser politicamente correto, precisa fazer experimentos linguísticos, esconder o narrador, abusar da metalinguagem. Precisa fazer do texto dele um resuminho daquilo que a vanguarda fez nos últimos anos, para agradar as pessoas. Se você não tem uma crítica que está disposta a agradar o público, numa linguagem que ele compreenda por que aquele livro é bom ou não é, você não forma leitores.

O leitor do caderno cultural não quer abrir o jornal e ter uma aula de estruturalismo. Não está interessado em Roland Barthes [crítico francês, expoente do estruturalismo], Roman Jakobson [linguista russo] e o diabo. Ele quer alguém que faça o meio de campo entre a obra e ele, leitor comum, e diga por que vale a pena ler aquele livro. A maior parte da crítica literária se recusa a isso.

Você é um crítico do relativismo cultural, como mostra o se livro.

Mas claro. Nós temos que fazer julgamentos. O Sílvio Romero desancou o Machado de Assis do começo ao fim. Tratava o Machado como se fosse um capacho. Ele fez mal? Não. Ele cumpriu o papel dele dentro do sistema literário, que é o de criticar. Isso diminuiu a obra machadiana? Até o momento, não. O que prevaleceu foi a obra machadiana, em detrimento da crítica do Sílvio Romero.

Isso diminui o valor do trabalho do Silvio Romero? Não. É uma figura importantíssima, precisa ser lido, precisa ser conhecido. Nós não podemos ter o temos de ocupar o nosso papel dentro do sistema literário. Precisamos deixar de lado essas coisas e dizer com absoluta franqueza o que a gente pensa.

Essa posição tem um custo para você?

É de ter muitos desafetos.


Mas você tem muitos desafetos?

Acredito que sim.


Nesse episódio, você foi criticado também pelas afinidades com o filósofo Olavo de Carvalho. Qual é sua relação com ele?

Eu sou aluno do Olavo. O Olavo tem um seminário de filosofia on-line do qual sou aluno, e sou admirador do trabalho que ele faz, seja como filósofo, seja como polemista. É uma pena que nós não tenhamos mais pessoas com a coragem que o Olavo tem, de falar as coisas com absoluta franqueza, e dar a sua opinião.


Não estou discutindo se ela é a certa ou a errada. Mas expressar a sua opinião de maneira clara e, como se diz no jargão, pôr a cara para bater. As críticas que fazem em relação ao Olavo se baseiam muito mais na figura dele como polemista.

Se as pessoas parassem e fossem efetivamente ler as obras do Olavo, de critica cultural, obras filosóficas, começariam a formar não digo uma ideia diferente, mas perceberiam que as coisas que o Olavo fala são fundamentadas.

Não é um louco que sai por aí atirando de maneira irresponsável. Ainda que, como polemista, seja essa a impressão que ele pode passar. Isso se deve também à hegemonia do marxismo. A hegemonia de esquerda foi lentamente construída.

Fonte: PAULO WERNECK - Folha de SP

"Estado deve dinamizar, e não inventar a cultura"

Postado em 28 de novembro de 2012 por Cooperativa Cultural Brasileira


A pedido do prefeito reeleito do Rio, Eduardo Paes, Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa será o novo nome da pasta que Sérgio Sá Leitão ocupará a partir de dezembro. O órgão receberá R$ 57 milhões adicionais para o inédito fomento público ao setor criativo carioca.
Prestes a completar quatro anos na presidência da RioFilme, ele permanece no órgão para promover a hoje inexistente integração com a secretaria. Também estão nos planos a criação do fomento reembolsável para iniciativas com vocação comercial e o estreitamento dos laços com os governos estadual e federal, promessa de campanha do prefeito, ainda mais essencial com a chegada da Copa do Mundo e da Olimpíada.
Sem vínculos partidários, no entanto, Leitão não teme divergir com a agenda do Ministério da Cultura (MinC) em assuntos como Procultura, a proposta de reformulação da Lei Rouanet. "Essa noção de descentralização que se disseminou é discriminatória com os polos culturais", diz. "Um absurdo." Leia a seguir os trechos principais de entrevista concedida ao Valor.
Valor: Qual é o principal desafio do projeto de integração da RioFilme com a secretaria municipal?
Sérgio Sá Leitão: O prefeito enfatizou que precisamos nos transformar em uma Secretaria de Cultura e de Economia Criativa, que passará a ser o nome da pasta, para incorporar a dimensão econômica. Vou acumular as duas funções para promover a integração entre os órgãos, historicamente distanciados. Depois de seis meses vou reavaliar. Mas nunca pleiteei o cargo. O convite se deve ao desempenho da RioFilme, à cultura do planejamento e do foco em resultados. É um projeto de quatro anos, que é o tempo mínimo necessário para desenvolver um trabalho sério.
Valor: O orçamento não deverá ficar apertado ao abarcar uma nova função?
Sá Leitão: Na proposta em discussão na Câmara, teremos, em 2013, R$ 228,6 milhões para a secretaria, incluindo aí R$ 39,2 milhões da RioFilme e R$ 16,5 milhões da Fundação Planetário. É um orçamento adequado para o seu atual papel. Mas o prefeito autorizou incorporar R$ 57,3 milhões para a economia criativa, previstos no planejamento da prefeitura.
Valor: Como sair da teoria para o campo prático no fomento ao setor criativo?
Sá Leitão: Esse é o desafio. O potencial econômico não realizado, incorporando áreas como design, moda e arquitetura, é um novo front para o país. E a capacitação é chave. Desenvolvemos na RioFilme um projeto com o Senai que criou 355 vagas em áreas com lacuna de profissionais. Vamos identificar as carências da cultura e criar, no primeiro ano, 5.000 vagas.
Valor: Como ficam as áreas tradicionais e os editais da gestão anterior para dança, artes cênicas, artes visuais e música?
Sá Leitão: Trata-se de uma gestão de continuidade. Houve muitos avanços, e preservaremos o que foi feito. Todos os recursos serão investidos por edital. E passaremos a trabalhar com a ideia de investimento reembolsável, que praticamos na RioFilme, para iniciativas com potencial de receita, e não reembolsável, quando a vocação é cultural. Sendo uma empresa, a RioFilme passará a cuidar de todos os investimentos reembolsáveis, inclusive em outros setores da cultura. E a secretaria continuará responsável pelo fomento cultural, mas incluirá o audiovisual.
Valor: O Programa de Fomento ao Audiovisual Carioca (FAC) será lançado neste ano, como prometido pelo prefeito?
Sá Leitão: Sim, com o mesmo valor anterior, de R$ 15 milhões, assim que a Câmara aprovar o orçamento de 2013.
Valor: Permanece a política de expansão e de gestão dos equipamentos culturais?
Sá Leitão: O problema central da nossa rede é que é má distribuída. A expansão das arenas e dos cinemas populares continua, principalmente em direção às Zonas Norte e Oeste. Vamos diversificar o modelo de gestão, trabalhando o máximo possível com a iniciativa privada, permitindo concessões e permissão de uso para empresas, grupos culturais ou organizações sociais. Contrataremos uma consultoria para fazer grande levantamento que indique a vocação de cada equipamento e o investimento necessário para recuperá-lo, já que muitos não estão em boas condições. Espero em 2014 iniciar as mudanças. Buscaremos mais eficiência e o melhor uso possível do dinheiro público. Em muitas situações, parece-me que não estamos obtendo hoje o melhor resultado possível.
Valor: O projeto que institui o Procultura, em substituição à Lei Rouanet, tem como um de seus critérios a descentralização. O senhor concorda que a concentração no eixo Rio-São Paulo é nociva ao país?
Sá Leitão: Essa noção de descentralização que se disseminou é discriminatória com quem realiza e com os polos culturais. Por que prejudicar quem está fazendo? É um absurdo. Em todos os países é natural que existam cidades onde a produção cultural tem peso maior. Corre-se o risco de prejudicar a produção nesses polos sem necessariamente criar substitutos. Há avanços no Procultura, mas, em geral, é um retrocesso. O papel do Estado é dinamizar e não determinar, centralizar, ordenar. Cultura é uma força viva da sociedade, não é algo que o Estado inventa.
Valor: O que quer dizer com isso?
Sá Leitão: Historicamente, o MinC comporta-se como uma secretaria que pensa somente na Cultura que depende do Estado e não no conjunto do setor. Trata-se de uma visão paroquial. O Ministério da Educação, por exemplo, preocupa-se claramente com todo o setor, seja a esfera pública ou a privada. Precisamos acabar no Brasil com a ideia de que existe, de um lado, a produção cultural que deriva do Estado e, do outro, o resto. Cultura é uma atividade de caráter privado, da sociedade civil. A vida noturna, por exemplo, gera grande impacto econômico e tradicionalmente está fora do escopo do poder público. Eu discordo.
Valor: Qual é a sua opinião sobre a intenção anunciada pela ministra da Cultura, Marta Suplicy, de fomentar iniciativas de produtores culturais negros?
Sá Leitão: Tenho grande respeito e admiração pela ministra. A sua presença tem o grande mérito de dar um capital político que o ministério talvez nunca tenha tido. A ministra está tomando pé da situação, não é uma especialista em gestão cultural e está fazendo a sua curva de aprendizagem. Precisamos ver que medidas são essas, mas, em princípio, não acho que seja o melhor caminho.
Valor: Como fazer que uma promessa da campanha eleitoral, a integração entre os governos federal e estadual e a prefeitura, ocorra de fato na cultura?
Sá Leitão: Até a posse estou debruçado em números e planejamento. Ao assumir vou procurar a Adriana Rattes [secretária estadual de Cultura] e a ministra para ver de que forma vamos trabalhar juntos. O Rio é o principal palco cultural do Brasil. Obviamente que o governo federal tem interesse grande nisso.
Valor: Como evitar, com a chegada da Olimpíada e da Copa do Mundo, que os investimentos migrem para o esporte?
Sá Leitão: A realização desses eventos abre um vasto leque de oportunidades para o país e também para a cultura, sobretudo numa cidade como o Rio. Acabamos de assistir ao exemplo brilhante de como o Reino Unido aproveitou para promover seus ativos culturais nas cerimônias de abertura e de encerramento da Olimpíada. O último álbum do Coldplay aumentou suas vendas em 1000% após o evento. No caso do audiovisual, haverá uma demanda gigantesca por equipamentos, profissionais e estúdios. Temos de nos preparar para fazer que essa demanda se transforme em ganho estrutural.
Fonte: João Bernardo Caldeira | Para o Valor, do Rio


Rua Augusta se transforma em galeria a céu aberto

Postado em 22 de novembro de 2012 por Cooperativa Cultural Brasileira


 Se estiver passando pela área da Rua Augusta de 22 a 24 de novembro, olhe para o alto. Com projeções gigantescas nas laterais de prédios, o 3º Vídeo Guerrilha, um projeto interativo que pretende colorir a cidade, traz trabalhos de projeção mapeada, videoarte, animação e fotografia em 14 empenas de edifícios. É a versão moderna do cinema ao ar livre ou de uma galeria de arte ao ar livre, com uma linguagem que tem tudo a ver com São Paulo.
Os trabalhos de mais de 100 artistas devem transformar o cinzinha da Rua Augusta. A Vídeo Guerrilha, premiada como melhor iniciativa visual pela APCA, traz nesta edição a colombiana Carmen Gil, a argentina Maia Navas, a espanhola Francesca Llopis e o holandês Miguel Petchkovsky, da Time_Frame Foundation, entre outros. O público também pode interagir em expaços exclusivos, como o Agigantador de Pessoas, que projeta sua imagem em um edifício de 30 metros, e o grafite virtual, que dá a artistas a chance de desenhar ao vivo em plena Rua Augusta. O que é melhor: o público também terá de chance de testar essas tecnologias para criar arte ao vivo.
Em 2013 o projeto passa a ser itinerante, ganhando edições na região dos Arcos da Lapa, no Rio de Janeiro, e no Complexo Cultural da República, em Brasília.
 
 Programação e Relação dos Espaços Projetivos
 Espaço 1
Rua Augusta, 1351
Espaço reservado à apresentação de artistas selecionados pelos curadores internacionais.

Espaço 2
Rua Augusta, 1276
Espaço reservado à apresentação do projeto Inside Out Moinho, idealizado pelo fotografo francês JR e produzido pela Dharma Arte.

Espaço 3
Rua Fernando de Albuquerque, 31
Espaço reservado ao trabalho dos artistas do Estúdio SinLogo, localizado na própria Rua Augusta, especializado em ilustração e animação. Eles também tem sede em Londres.

Espaço 4
Rua Costa, 83 – Esquina com Rua Augusta
Trabalho de vídeo mapping realizado pela Visualfarm. Artistas convidados: Carmen Gil Vrolijk e VJ Suave

Espaço 5
Rua Augusta, 921 e 941
Área Interativa
Espaço destinado ao Grafite Virtual e instalações interativas. Convidados: Wilton Azevedo, VJ Pixel, VJ Soneca e Rafael Beck

Espaço 6
Rua Augusta, 902
Espaço destinado aos VJs da Visualfarm. VJs Alexis, Alexandre Gonzalez, Kenji. Boca e Ross. Projeto convidado: AVAV

Espaço 7
Rua Augusta, 788
Espaço destinado aos trabalhos da Visualfarm

Espaço 8
Rua Augusta, 746 – Lado Jardins
Espaço TAZ – Zona Artística Temporária, reservada aos trabalhos de novos artistas e estudantes, enviados e selecionados pela Open Call do Vídeo Guerrilha e pela rede ITS NOON, além de alunos do Instituto Criar e IED.

Espaço 9
Rua Augusta, 746 – Lado Centro
Espaço destinado a artistas internacionais selecionados pelos curadores convidados.

Espaço 10
Rua Antonio de Queiroz, 96
Espaço destinado aos trabalhos em parceria com o projeto Times Square Art Square, de Nova York.

Espaço 11
Rua Augusta, 541
Área interativa destinada ao Agigantador de Pessoas.

Espaço 12
Rua Augusta 580
Espaço destinado a artistas selecionados pelo Curador Ricardo Botini

Espaço 13
Rua Marques de Paranaguá, 357 esquina Rua Augusta
Espaço destinado a trabalho de vídeo mapping da Visualfarm

Espaço 14
Prédio em construção – Rua Augusta, 850
Espaço destinado ao trabalho interativo SocketeScreem, dos artistas Raquel Rosalen e Rafael Marchetti.

 De 22 a 24/11, qui. a sáb. Rua Augusta, 1.351 e mais 13 espaços nas adjacências. Rua Augusta, 541 (Agigantador de Pessoas). Rua Augusta, 921 e 941, área interativa para grafite virtual com Wilton Azevedo, VJ Pixel, VJ Soneca e Rafael Beck como convidados.
Fonte: Época São Paulo

Vale-Cultura é aprovado na Câmara

Postado em por Cooperativa Cultural Brasileira


Na tarde desta quarta-feira, 21, o Plenário da Câmara dos Deputados aprovou , em votação simbólica, o Projeto de Lei 4682/12 que cria o Vale-Cultura, no valor de R$ 50 mensais para os trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Terá direito o trabalhador que receba até cinco salários mínimos.

A ministra Marta comemorou a aprovação e elogiou todos os que contribuíram para que ela acontecesse: “As colaborações do presidente da Câmara, Marco Maia, da Frente Parlamentar da Música e de cada parlamentar que votou pela aprovação foram imprescindíveis.”

Em muitos momentos a ministra comparou os efeitos do Vale-Cultura com os do Bolsa-Família: “Pelo impacto que o Bolsa Família teve no Brasil, dá para termos ideia do que o Vale-Cultura vai fazer.”

Nas palavras da ministra, “o benefício será o “bolsa-alma do Governo Dilma” por levar cultura a tantos brasileiros. Por isso, Marta vinha colocando a aprovação do Vale como uma de suas prioridades e vinha conversando constantemente com parlamentares sobre o tema. Em um dos momentos, reunida com deputados, a ministra chegou a lhes dizer: “Cada deputado vai voltar para seu estado e dizer: ‘eu ajudei a aprovar o Vale-Cultura’.”

Marta também chamou a atenção, mais de uma vez em suas falas, para a autonomia que o Vale oferece ao cidadão na hora de escolher qual produto cultural ele vai adquirir e para sua abrangência do ponto de vista econômico, uma vez que, segundo a ministra, ele vai “beneficiar tanto consumidores de cultura quanto seus produtores que passarão a ter um público maior.”.

A matéria será, agora, enviada para análise do Senado.


Fonte: MinC